Isqueiros e carteiras de cigarro sobre a mesa.
Todos os meus amigos fumam.
Enquanto alguém discursa alguma coisa sobre literatura ou cinema, eu
observo o mar de Ondina a minha frente com um olhar de injustificada nostalgia.
Alguém toca em meu ombro: é a menina do bar, traz duas cervejas
impossivelmente geladas e me pede com um gesto de cabeça para que abra espaço
para que ela possa recolher uma garrafa vazia próxima a mim.
Duas cervejas geladas assim são do tipo difícil de encontrar, tão
difíceis quanto Deus, ou como O Amor Verdadeiro.
Hei de beber. Antes que um dia elas comecem a rarear e eu tenha que me
contentar com Deus. Ou com o Amor.
Todos os meus amigos bebem.
Quer dizer, quase todos.
Na minha cabeça já meio alcançada pelas cervejas desta tarde, uma única
lembrança persiste: o cheiro que aquela mulher tem.
Mas isso é irrelevante por agora, estou com meus amigos. E eles bebem,
e fumam, e falam de literatura e contam novas aventuras sexuais, ou relembram
algum passado glorioso.
Jornal de Ontem, eu penso, notícia velha.
Mas que puta sensação de falta é essa? Tudo está perfeitamente pintado
aqui, cerveja gelada, fumaça que sobe e desce, alguém sorrateiramente enrolando
um baseado com habilidade de profissional por debaixo da mesa, meus amigos, meu
bar preferido. E o mar de Ondina.
De repente capto o som de meu apelido, me viro apressado:
- Reden, porra, acorda.
E alguém rebate.
- Reden tá apaixonado, deixa ele, tá pensando nela.
Eu dou uma risada amarela e me viro novamente para o mar, coçando o que
deveria ser a minha barba.
Alguma coisa acontece no meu coração.