Dentro da mente e do coração daquele homem cabem a angústia de uma vida inteira, a insônia e o desassossego de toda uma existência. Cabem trezentas borboletas agitando-se em todas as direções, criando talvez o mais belo e o mais devastador espetáculo da terra.
Aquele homem é poeta, é louco; é amante e amador. É o mortal que espreme beleza do sofrimento, que extrai emoção da ruína. Você não entende porque esse homem tanto sofre e tanto escreve, porque simplesmente não vai viver sua vida, trabalhar, criar seus filhos, dormir com sua esposa, trepar com suas amantes. E, de fato, ele não sabe te explicar porque simplesmente não pára de fantasiar o sofrimento que talvez não tenha; de escrever sobre a angústia que, tendo você a mais absoluta certeza, não o pertence e, limpando a fuligem da sua camisa cinza, deixa de tanta auto-flagelação; arregaça as mangas e vai ser mais um na bolha.
Mas o estranho jovem fumante, sentado na calçada, nada diz, nada sabe dizer, nada pode dizer sobre isso. Apenas sorri vagamente e olha para o alto. Com certo desdém, com certa crueldade...
Basta-me uma noite quente,
uma noite boa para beber
e lembrar dos tempos d'antes,
quando já me achava homem, poeta e louco.
Agora somente mais homem, ainda menos poeta
e incorrigivelmente louco.
Ah! Nesses dias azuis e assustadores,
em que precisamos de uma noite dessas,
não encontra-se nada além de sol
brilhante, estático, forte,
observando impassível minha morte.
Mas deixa, embora noite não seja,
que meu sangue role
e se enrole
nos seus fios de cabelo
e nos raios de sol.
Aquieta e encosta em mim,
que mesmo noite não havendo,
para nos acariciarmos no escuro;
que mesmo não radiando a lua no céu,
vigilante da nossa embriaguez,
ainda temos tempo de olhar o sol ir deitar.
Faz silêncio e olha pr'onde aponto,
que ali pelo canto a noite já vem.
Deita aqui e aproveita, que de dia
o mundo é menos meu;
aproveita que ainda temos o pôr-do-sol.
Por enquanto...
Acho que em horário nenhum outro, sinto eu tanta saudade. Saudade mesmo dos seus fingidos orgasmos, da sua cara de desprezo, quando me pegava bebendo café batizado. Do áspero roçar dos pêlos da sua perna, por depilar ainda na terça-feira, às minhas entrelaçadas; numa mistura de balé clássico e salsa cubana.
Realmente Noite é uma coisa muito deprimente. É só à Noite que vontade sinto de escrever, sem camisa, com a calça ainda do dia, adiando o último banho; aquele que findará a diária rotina numa cama de lençol descorado.
Dessas coisas a vida tem, saudade que de noite vem, mulheres que pela manhã se vão e aquela cíclica e insáciavel necessidade de pecar: reservamos de Deus só o medo, e rezamos.
E rezo, rezo para que, ao meio-dia da vida, alguém, um isqueiro tenha. Ou para que, devagar, passe a Noite; posto que é no meio desse noctívago desespero que te recordo, que te esqueço, e que durmo, sonhando meus amargos sonhos de verão.
[Obs: Perídos, pontuação e sintaxe desconstruídos just-to-taste ;) Ps: And the taste is good! :D - Reescrito em 17/11]
