sábado, 19 de dezembro de 2009

Daniela


Daniela era minha grande paixão. E nos víamos quase todos os dias. Isso quando eu ainda morava na casa de meu pai.
Daniela era alta, tinha um óculos que quase nunca usava, livros de auto-ajuda na estante, um cinzeiro sempre cheio de baganas. Porque ela fumava o suficiente pra incomodar qualquer um que convivesse com ela por um único dia. Mas isso não incomodava ninguém: Daniela morava sozinha.
Trabalhava num escritório de uma firma de advocacia, tinha um patrão que sempre dava um jeito de fazer um gracejo que, às vezes, era chulo.  Mas isso não me incomodava, nem incomodava Daniela. Ela gostava de saber que ainda era desejada, eu gostava de saber que os outros desejavam ela.
Daniela dizia gostar de ler, mas por falta de tempo ou interesse, quase nunca lia de fato. Eu comprava biscoito de iogurte, porque Daniela gostava e ela comprava coca-cola por minha causa.
Foi com ela que aprendi a olhar pela janela, que aprendi a sentar na calçada, que aprendi a escrever. Foi com ela que aprendi a dizer que a vida era uma merda, que a vida era bela, que a vida era feita só pra gente fumar, furtar e fuder. E dançar. Daniela dançava bem, cantava bem e sorria fácil.
Sorria pra todo mundo, homem e mulher; sorria demais. E isso não me incomodava. Era difícil se inquietar com qualquer coisa, quando se havia aprendido a olhar a cidade com ela.
Um dia Daniela teve que ir; não me explicou com calma pra onde. Chovia. Eu não entendi direito por que.
Daí em diante só restou a cidade e a solidão. Também a cópia da chave do apartamento sem mobília nenhuma, que, após alguns anos, ainda visito de vez em quando. Sento no chão empoeirado e olho pela janela para o céu escuro. Lembro de Daniela. Quantas e quantas vezes estivemos sentados naquele mesmo chão, outrora com um tapete amarelo, que destoava da sua personalidade vermelho-sangue? Jogávamos dominó apostando cigarros, varríamos farelos de biscoito de iogurte, assistíamos filmes de ação, filmes de terror, filmes pornô.
Lembro de Daniela e quase choro, quase tento advinhar onde ela está, com quem está dormindo, como é o tapete de sua nova casa.
Daniela se foi e não deixou saudade, porque não deixou reticências, porque não falava pela metade. Não me liga, não me grita, não me lê. Só existe porque não existe. Só significa porque não aparece. Daniela é latente, é berrante. É vazio.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Pausa pro café II

"O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome."


De uma Carta de Hélio Pelegrino - Transcrito do Livro O encontro marcado de Fernando Sabino.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pausa pro café I

"Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós."

Trecho de A alma encantadora das ruas, de João do Rio.

sábado, 28 de novembro de 2009

Angústia

Você não entende aquele homem.
Não consegue ver seu coração apertado, seus olhos úmidos e sua boca com o gosto amargo da vida.
Tudo que ele conforma é para você uma imagem imediata. Um homem somente, vestido, talvez formalmente demais, para alguém que está sentado na calçada; talvez fumando demais, para alguém tão jovem, talvez jovem demais para toda a angústia que você não vê.
Esse homem com sua cartola engraçada, com seu copo de café escuro como a madrugada; esse homem, que olha para o tráfego despropositado e caótico da cidade como quem admira uma tela de Mondrian, não é só um homem. São dez, cem homens. Uma miríade de ele-mesmo, ali sentada. Retribuindo com certo desdém e crueldade os olhares cheios de indagações que você, por pouca coragem ou tempo, não deixa escapar à boca.
Dentro da mente e do coração daquele homem cabem a angústia de uma vida inteira, a insônia e o desassossego de toda uma existência. Cabem trezentas borboletas agitando-se em todas as direções, criando talvez o mais belo e o mais devastador espetáculo da terra.
Aquele homem é poeta, é louco; é amante e amador. É o mortal que espreme beleza do sofrimento, que extrai emoção da ruína. Você não entende porque esse homem tanto sofre e tanto escreve, porque simplesmente não vai viver sua vida, trabalhar, criar seus filhos, dormir com sua esposa, trepar com suas amantes. E, de fato, ele não sabe te explicar porque simplesmente não pára de fantasiar o sofrimento que talvez não tenha; de escrever sobre a angústia que, tendo você a mais absoluta certeza, não o pertence e, limpando a fuligem da sua camisa cinza, deixa de tanta auto-flagelação; arregaça as mangas e vai ser mais um na bolha.
Mas o estranho jovem fumante, sentado na calçada, nada diz, nada sabe dizer, nada pode dizer sobre isso. Apenas sorri vagamente e olha para o alto. Com certo desdém, com certa crueldade...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Equinócio

Basta-me uma noite quente,
uma noite boa para beber
e lembrar dos tempos d'antes,
quando já me achava homem, poeta e louco.
Agora somente mais homem, ainda menos poeta
e incorrigivelmente louco.
Ah! Nesses dias azuis e assustadores,
em que precisamos de uma noite dessas,
não encontra-se nada além de sol
brilhante, estático, forte,
observando impassível minha morte.

Mas deixa, embora noite não seja,
que meu sangue role
e se enrole
nos seus fios de cabelo
e nos raios de sol.
Aquieta e encosta em mim,
que mesmo noite não havendo,
para nos acariciarmos no escuro;
que mesmo não radiando a lua no céu,
vigilante da nossa embriaguez,
ainda temos tempo de olhar o sol ir deitar.

Faz silêncio e olha pr'onde aponto,
que ali pelo canto a noite já vem.
Deita aqui e aproveita, que de dia
o mundo é menos meu;
aproveita que ainda temos o pôr-do-sol.
Por enquanto...

domingo, 8 de novembro de 2009

Thrill is gone

É só de Noite.
Acho que em horário nenhum outro, sinto eu tanta saudade. Saudade mesmo dos seus fingidos orgasmos, da sua cara de desprezo, quando me pegava bebendo café batizado. Do áspero roçar dos pêlos da sua perna, por depilar ainda na terça-feira, às minhas entrelaçadas; numa mistura de balé clássico e salsa cubana.
Realmente Noite é uma coisa muito deprimente. É só à Noite que vontade sinto de escrever, sem camisa, com a calça ainda do dia, adiando o último banho; aquele que findará a diária rotina numa cama de lençol descorado.
Dessas coisas a vida tem, saudade que de noite vem, mulheres que pela manhã se vão e aquela cíclica e insáciavel necessidade de pecar: reservamos de Deus só o medo, e rezamos.
E rezo, rezo para que, ao meio-dia da vida, alguém, um isqueiro tenha. Ou para que, devagar, passe a Noite; posto que é no meio desse noctívago desespero que te recordo, que te esqueço, e que durmo, sonhando meus amargos sonhos de verão.

[
Obs: Perídos, pontuação e sintaxe desconstruídos just-to-taste ;) Ps: And the taste is good! :D - Reescrito em 17/11]

sábado, 7 de novembro de 2009

Estásimo

Nada que eu viesse a dizer importaria; nada poderia se fazer entendível, nem explicável. Sou vozes e vozes, e falam daquilo que já sabemos.
Embora imersos na loucura que é desejar ter a si sozinho e ter a outros, mesmo estando nós a abraçar e morder a mesma carne agridoce da vida, ainda que falemos centenas de línguas, ainda que compreendamos tudo sobre a guerra e o amor, nada do que um de nós, especialmente eu, venha a dizer importará de fato.
Grito, canto, choro para a cidade que espera o ônibus no ponto, para os transeuntes que sorriem na calçada. Eu imploro, eu rogo, para que vejam, para que você veja, entenda quem sou, um louco que ouve vozes; um homem que tem o coração dividido, um homem que ama você.
Um insone que queima a vida em vinte passos, que espera um tempo insuportável para que possa te ver pela janela; um insano desesperado, que insiste em tentar alertar a todos e principalmente a você; um incerto que ninguém dá ouvidos, um estranho que não abre mão de ser só.

(É essa minha mania de falar, falar e dizer nada que sempre me deprime...)

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