Daniela era minha grande paixão. E nos víamos quase todos os dias. Isso quando eu ainda morava na casa de meu pai.
Daniela era alta, tinha um óculos que quase nunca usava, livros de auto-ajuda na estante, um cinzeiro sempre cheio de baganas. Porque ela fumava o suficiente pra incomodar qualquer um que convivesse com ela por um único dia. Mas isso não incomodava ninguém: Daniela morava sozinha.
Trabalhava num escritório de uma firma de advocacia, tinha um patrão que sempre dava um jeito de fazer um gracejo que, às vezes, era chulo. Mas isso não me incomodava, nem incomodava Daniela. Ela gostava de saber que ainda era desejada, eu gostava de saber que os outros desejavam ela.
Daniela dizia gostar de ler, mas por falta de tempo ou interesse, quase nunca lia de fato. Eu comprava biscoito de iogurte, porque Daniela gostava e ela comprava coca-cola por minha causa.
Foi com ela que aprendi a olhar pela janela, que aprendi a sentar na calçada, que aprendi a escrever. Foi com ela que aprendi a dizer que a vida era uma merda, que a vida era bela, que a vida era feita só pra gente fumar, furtar e fuder. E dançar. Daniela dançava bem, cantava bem e sorria fácil.
Sorria pra todo mundo, homem e mulher; sorria demais. E isso não me incomodava. Era difícil se inquietar com qualquer coisa, quando se havia aprendido a olhar a cidade com ela.
Um dia Daniela teve que ir; não me explicou com calma pra onde. Chovia. Eu não entendi direito por que.
Daí em diante só restou a cidade e a solidão. Também a cópia da chave do apartamento sem mobília nenhuma, que, após alguns anos, ainda visito de vez em quando. Sento no chão empoeirado e olho pela janela para o céu escuro. Lembro de Daniela. Quantas e quantas vezes estivemos sentados naquele mesmo chão, outrora com um tapete amarelo, que destoava da sua personalidade vermelho-sangue? Jogávamos dominó apostando cigarros, varríamos farelos de biscoito de iogurte, assistíamos filmes de ação, filmes de terror, filmes pornô.
Lembro de Daniela e quase choro, quase tento advinhar onde ela está, com quem está dormindo, como é o tapete de sua nova casa.
Daniela se foi e não deixou saudade, porque não deixou reticências, porque não falava pela metade. Não me liga, não me grita, não me lê. Só existe porque não existe. Só significa porque não aparece. Daniela é latente, é berrante. É vazio.