Sentado.
No outro lado - o de fora - da porta do apartamento de Renato, eu estou.
Não faz realmente muito tempo desde que discutimos, e brigamos, e juramos nunca-mais-olhar-em-sua-cara. Dois dias no máximo, ou algumas horas somente, o tempo é agora minha menor preocupação.
Ouvindo.
Brigamos porque cheguei com bebida demais no juízo - como diria meu pai, se ainda fosse vivo - esquecido do jantar a dois que tínhamos combinado. E deu-se aquela conversa que subia de tom como um cantor de ópera apressado, aquela troca de ofensas que iam desde insensível a filho-da-puta. Uma coisa leva a outra, como sempre.
Cássia Eller depois Cazuza depois Caetano depois Michael Bublé.
Incrível como dessa vez, embora de causa completamente superável e banal, eu senti que jamais, jamais mesmo, fossêmos fazer as pazes novamente.
B. B. King depois Los Hermanos depois alguma banda de rock underground que em algum momento ele já tentou me fazer ouvir e eu preferi não.
No dia seguinte à briga eu acordei ainda tonto, ainda com o gosto ácido de vodka na boca, lembrava de nada, só de sair da casa de Renato e vomitar no outro lado da rua onde fica o prédio dele. Lembrava de alguns palavrões. Tentei ligar, uma duas três quinze duzentas vezes, mas não fui atendido.
Fidelity, Disritimia e Under the Boardwalk.
Ligação, banho, ligação, almoço, ligação, ligação, ligação, (desespero), ligação, ligação, (mãos nos cabelos, cinzeiro com inúmeras baganas, garganta doendo de tanto fumar), tentativa de leitura, ligação, ligação, infinitamente até pegar no sono com a tv ligada.
Um fim de semana inteiro nesse sofrimento anunciado, angustiante. Como se eu imaginasse que a segunda-feira seria da previsibilíssima agenda de não conseguir tocar a campainha e passar tarde e noite ouvindo a playlist dele sentado no tapete do corredor.
Pink Floyd, Placebo, Pearl Jam, Paralamas - todos com P. Seria coincidência?
Será que Renato estava com alguém no apartamento? A música não deixava saber. Será que me odiava? Será que tinha se matado?
Anos Dourados, Water to Drink, Your Love is King, Cry Me a River, Love Me Tender.
Ouvir o que Renato ouvia me tranquilizava. Vez ou outra eu ria abafado, pra não fazer barulho, imaginando-o cantando ou dançando uma ou outra faixa. A aflição que me era enorme, parecia diluida, divertida, patética e vulgar. Eu viera decidido a esclarecer tudo, deixar as coisas novamente bem. Compraríamos pizza e vinho barato, depois sexo, sono, beijo de despedida e cada um pro seu trabalho. Mas só conseguia ficar assim dilui-diver-patét-vulgarmente sentado.
Chorei quando tocou Lama, pensava se ele pensava em mim, se sabia que eu estava ali e ajustava as músicas de modo a me fazer entender alguma coisa, algum tipo de mensagem indecifrável, que horas me fazia rir, horas me fazia chorar, horas quase me fazia tocar a campainha.
Eu que não amo você, Eu não existo sem você, Eu te amo.
Em meio a tantos “eu” estava claro que ele pensava em mim, mas em meio a tanto contradição, fiquei sem saber se ficava triste ou feliz com isso, e foi ao som de Chico que aquela doce criatura abriu a porta e pode ver o mais patético dos seres sentado ali. Pode me ver abraçar os joelhos na falta de calor humano e pode ver o mais pedinte dos olhares, pedinte de abrigo, de carinho, de Renato.
Ficamos ali nos olhando pelo instante do segundo, que poderia ser comparado a uma eternidade, comecei a me afogar naqueles olhos grandes e negros, vi neles o nosso futuro, uma vida cheia de dificuldades, mas sempre juntos e transbordando de felicidade, o sonho era lindo, mas quando voltei a mim, fui jogado na realidade daqueles mesmo olhos que já haviam me tido amor e agora emanavam pena.
Não sei ao certo se as músicas haviam acabado ou era eu que não conseguia escutar nada, só o silêncio.
Ele me estendeu a mão, mas não consegui alcançá-la, ou pelo menos não queria, mais parecia um gesto de piedade que de carinho, havia chegado ao fim, minha vida perdera todo o sentido naquele olhar, eu não tinha mais o que fazer, para onde ir, quem procurar, tirei forças não sei de onde para sair daquele prédio sem nem olhar para trás.
Seguir em frente, sozinho, era muito mais difícil do que havia imaginado, agora era só um para cantar o dueto, uma só nota, uma só voz, mas não porque nos misturávamos e nos perdíamos um no outro, mas porque estávamos sós, ao menos eu estava, envolto de lembranças e saudade, e apesar do tempo ainda escuto as mesmas músicas, penso nos mesmos olhos e desejo o mesmo: Renato.
Obs: Com a ajuda essencial de Amanda (Roh) Pimentel na finalização do texto, sem ela esse post jamais teria saído dos rascunhos :D
Obs: Com a ajuda essencial de Amanda (Roh) Pimentel na finalização do texto, sem ela esse post jamais teria saído dos rascunhos :D
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