domingo, 6 de março de 2011

Baile de máscaras

Foi no bar de sempre, numa noite de sexta, como sempre.
A diretoria resolveu fazer uma festinha pra sair da rotina, improvisou um baile de máscaras, aproveitando que era carnaval, avisou aos clientes mais conhecidos e pediu que esses passasem adiante.
Eu, no lugar de sempre do balcão, bebendo Black Russian e conversando com Mia, a bartender.
Foi quando ela passou, vestido vermelho, campari on the rocks; vermelha, dos pés à cabeça.
Mia percebeu meu incomodo diante da figura e, sem que eu perguntasse nada, disse:
- É sobrinha do dono. Do Marques.
- Cheio de sobrinha ele, hein? Dá mais um.
Depois de conversar com todos os conhecidos eu ainda não conseguia tirar a sobrinha do marques da cabeça, levantava o pescoço, olhava em volta, nunca a via. Devia estar nos escritórios dormindo, aposto que era uma dessas meninas que não aguenta meia hora de festa e logo querem ir dormir.
Já passavam das duas horas quando eu havia desistido de procurar. "Duas horas da madrugada é o horário das bruxas", dizia um amigo meu, "se não aconteceu ainda, não acontece mais". Passei a conta no cartão, dei um beijo na testa da Mia e fui saindo.
Saí na rua, acenei pro segurança e parei pra acender um cigarro. Foi quando eu ouvi a voz dela.
- Meu isqueiro tá uma merda, me empresta o seu?
Como alguém que entrega a própia mão pra ser decepada estendi o isqueiro aceso, naquela lentidão e perpexidade hollywoodianas. Ela sorriu, agradeceu e ia indo embora. 
- A festa já acabou pra você? - Perguntei, sem conseguir pensar em nada melhor
- Não sei, acabou pra você?
- Pra mim acabou, falei com todo mundo, já passou das duas...
- O que tinha que acontecer, já aconteceu - ela completou de imediato, para meu total espanto.
- É verdade - só consegui concordar
- Sabe, eu acho que tudo em carnaval atrasa, até as bruxas podem atrasar. Vamo tomar mais uma, só pra rebater.
Eu ri, o jeito que falava, as coisas que falava, parecia comigo. Por um minuto pensei em almas gêmeas, mas desfiz o pensamento. Era uma desconhecida, não tinha a menor garantia de que ia conseguir nada com ela, talvez só quisesse passar o tempo comigo.
Bebemos mais uma, mais duas, logo fiquei sabendo seu nome, ela o meu, de onde vinha, onde morava, o que esperava do futuro, o que gostava de ouvir, de ler, de fazer. Entramos, como é de qualquer conversa do nosso tempo, nos assuntos sexuais. E ríamos, os copos subiam e desciam no balcão, vez ou outra eu pegava a Mia nos olhando, risinho malicioso no rosto.
Estava pra amanhecer quando o Marques apareceu no alto das escadas que vinham do escritório, olhou pra mim, tocou em meu ombro. Olhou para a figura da sobrinha e disse que ela tinha que se arrumar, o vôo de volta saía em duas horas e ela teria que se apressar.
O Marques falou comigo novamente e subiu, coçando a barriga.
Fiz uma cara de desapontado sem perceber, não havia me dito que viajaria pela manhã. Tentei disfarçar, trocamos telefone, e-mail, prometemos combinar alguma coisa em abril, na páscoa.
Ela deu as coisas e ia descendo as escadas quando eu chamei:
- Ângela! - ela voltou o rosto, cambaleou um pouco, efeito do álcool, efeito do susto - Tira a máscara, não vi seu rosto direito ainda.
- Também não vi o seu - ela rebateu rindo.
E foi só aí que percebi que ainda usava máscara. A constatação me custou: quando dei por mim ela já havia desaparecido escada abaixo. Agora era telefonar, manter contato e esperar a páscoa. E não esquecer: marcar cedo, antes das duas.

0 comentários: