terça-feira, 18 de outubro de 2011

Confissões de Outubro n.3

Eu poderia morrer hoje.
Como poderia morrer em qualquer outro dia.
Hoje, especialmente, acordei com uma azia estranha, sentindo umas pinicadas pelo corpo, também uma dor de cabeça constante. Viria então um médico de olhos frios e jaleco impecável, trazendo pendurado na alma o diagnóstico terrível: causa mortis: falência hepática associada a trombose aguda, decorrente de irregular postura ergonômica prolongada agravada por anemia falciforme SS crônica, em crise álgica sem dor provocada provavelmente pelo abuso de álcool no final de semana.
Engraçado, né?
Ouço Bob Dylan falar em minha cabeça através dos fones de ouvido:
"People are crazy and times are strange.
I'm locked in tight, I'm out of range,
I used to care but - things have changed..."
Penso mil coisas sobre mil coisas, penso, eu, a worried man with a worried mind, em como é bonito e precioso isso de se dar ao luxo de sofrer crises existenciais semi-programadas. Conheço pessoas que possuem dois empregos, três filhos e algumas mulheres e não tem essa e outras regalias, o único e terrível sofrimento só vem, brevemente, pela manhã: começar tudo de novo.
Eu poderia morrer hoje, como eu ia dizendo, e deveria tentar com o grande esforço evitar isso a cada dia, me cuidar mais, respirar direito, comer vegetais e lutar por um mundo melhor incomodando as pessoas por comerem carne, jogarem lixo no chão e não darem a mínima para política.
Foda-se tudo.
Fiz algumas escolhas erradas; a maioria das minhas escolhas foram erradas, mas as escolhas certas são poucas e sou do tipo que me entedio fácil: preciso de coisas novas, erradas que sejam.
E se um dia eu sumir, estando morto ou vivo, não se preocupem, deixo, junto com meu samba, o meu olhar de bamba.
Hoje fazem cinco anos. E é um dia como qualquer outro.

1 comentários:

Ynaiã disse...

Você é GENIAL!. você é genial meu preto. a complexidade da existência de pequenos poetas burgueses do novo cenário urbano.