Acho que foi ontem, ou hoje, que me dei conta. Na verdade não tenho certeza: quando acordei era quarta-feira e ao chegar em casa, no que pareceu ser de uma brevidade natural, era quinta-feira já bem tarde da noite. Ou meu relógio está desregulado, ou finalmente se regulou com o descompasso do mundo. Ou quem está desregulado-compassado sou eu.
Não faz muita diferença: quando me dei conta e isso foi um momento que também não tenho certeza da duração, percebi que estava perdido.
Mas não do lado de fora, como é mais comum, mas profundamente perdido dentro de mim mesmo, uma introspecção tamanha, que caminhava sem perceber o que fazia, sem pensar para onde estava indo. E foi nesse momento que dei por mim: olhos vazios, introvertidos, cabelo bagunçado, calça meio caindo e dor nas costas. Totalmente perdido.
E como eu ia dizendo, não perdido pra fora, como é mais comum, como já me é comum de tal forma que, estar perdido pra fora é estar achado pra mim, perdido na cidade eu me acho em meu lugar de berço, em meu ponto morto, perdido pra fora podemos resetar.
Mas estava perdido pra dentro e já havia muito tempo; alguma coisa dentro de mim, uma coisa qualquer, morreu. Uma coisa que sempre esteve lá e eu caminhei da quarta-feira que nasci até esta quinta-feira, sem me dar conta de que estava lá e que era uma coisa importante.
Essa coisa, que vou de chamar simplesmente de "pedaço", era o que comunicava todos os meus eus. O Pedaço ligava minha parte má com minhas partes boas com minhas partes podres com minha parte viva. E de repente isso morreu, feito pombo em ponto de ônibus, atropelado pela vida que devorei e engoli, pelas noites perdidas e achadas, pelo vício, pelo tédio, pelo cansaço.
O Pedaço foi-se, me transformou numa Babel humana com mil vozes falando dentro de mim e para que não enlouquecesse, ou suicidasse, um outro pedaço, que suponho ser a contraparte do Pedaço perdido, me desligou do mundo. Piloto automático.
Não sei precisar também quando foi que passei do "homem que guia suas vontades" ao "homem em piloto automático", só sei que foi quando o Pedaço desapareceu, que não sei quando foi. Acho que viver demais causa isso, destrói nossos pedaços e Pedaços, como beber demais destrói nosso fígado, como foder demais destrói nossa próstata.
"Vivi 50 anos em 20", ouvi um homem dizer uma vez: vivi mil anos em uma noite, várias vezes.
E o mais interessante é que, agora que saí do automático, me sinto meio diferente. Andei conversando em línguas diversas com todos os que residem em mim, recebi diversos conselhos, alguns tapas nas costas, outros na cara e isso mudou. Agora que está tudo finalmente organizado-cada-coisa-em-seu-lugar não sei qual o caminho que fazia, ou pra onde devo ir quando acordar. Ou vai que, quando acordar, não seja sexta-feira e sim terça, e tudo não passe de um sonho.
Engraçado é que pensei algo bem parecido com isso, ou foi ontem, ou foi hoje. Não consigo precisar.
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